“Ela quer morrer. Desistiu da vida.”
Assim minha avó concluiu seu resumo diário da terça-feira última. Tinha visitado uma amiga, antes tida como a personificação da disposição e alegria. Mas a pobre entristeceu-se, perdeu a sobrinha que amava, julgou-se só, sem porquês, sem motivos; rendeu-se à cama, desistiu de viver.
A história triste ouvi lamentando conjuntamente.
Viver é bom, mesmo quando dói. E dói quase sempre. A gente anda em ais. E a solidão é esse capataz que persegue a boa sorte de alguns, e lhes rouba o ânimo, a esperança; resta só a prostração e a espera dos segundos indo. Uma hora, finalmente, se acabam assim.
É triste ver a rendição e o desejo do fim. Acho estranho, a cada lua linda que se posta no céu, a cada sim e não que escuto, a cada chance ou fé de felicidade, a cada promessa de amor cumprida ou não… A cada isso, que é tanto, tudo, me revira a ideia da abdicação. Abdicar da vida. Como é possível algo assim?
Então lembro dos meus dias tristes, e eles existiram, e foram tão tristes como são todos os dias tristes, sem nome, sem cara, sem diferenciação. Na síntese, cinzas e ásperos, porque arranham nossa paz, e nos dilaceram a alegria. Os dias tristes são feras nascidas da nossa própria dor.
Sim, eu conheci a tristeza, e justamente nessa hora, não me agradou sua face; foi quando preferi a felicidade, mesmo aquela vestida de alegria do instante efêmero.
O beijo que eu dei. O beijo que quis e me levou a sonhar, e não dei… ( acreditem, foram muitos). O abraço ousado, o abraço ganhado, a paz refeita, o perdão dado, a mão recebida. O toque, o cativar, o amor, o cuidado.
Esses prêmios, as conversas guardadas no ouvido da lembrança. A mão que antes pôs medo e depois foi só amor. A voz que ditou conselhos, depois pediu atenção. A vida, assim… Rica, linda. Como abrir mão?
A amiga de minha vó deitou-se e espera morrer. Está assim em um quarto escuro, e assim decidiu ficar. Pílula milagrosa nenhuma operou o tal milagre. E como diz Dona Osmarina: ” É mais nova que eu.” Não que sejam jovens as duas, não são. Mas a vida em si não tem idade…
Nisso tudo, além do compadecer, pensei e pensei em mim. Sofro de um subjetivismo crônico e irremediável.
Já dramatizei meus finais, cultivei lágrimas, depois as curti em frases intensas e pouco práticas. Hoje, as encaro com uma certa ironia, achando graça do meu escâncalo infantil. Descobri valores maiores. Como esse ( que não sei se absurdo ou não, se acaso legítima razão) impulsionador da entrega voluntária da amiga de minha avó de sua própria vida.
Ela perdeu quem amava, quem lhe dava carinho. Alguns chamam esse ser de mãe, marido, esposa, filho, filha, amigo; ou, no seu caso, sobrinha.
Aos trinta, minha maior lição foi amor. Eu já confundi amor com loucura, com devaneio, com prazer. Confundi amor até com capricho. Confundi, até me deparar com o medo de perder quem amava. Logo eu, que jurava desapego.
Hoje, amor é amor. E o que isso é, nem Platão, em seu banquete, conseguiu me dizer.
Peço o desvio do destino da amiga de minha avó. A renovação do viver, uma nova razão talvez…
Termino como realmente as coisas são, sem saber.
Quem diz que de saudade de amor não se morre, amor não conheceu.
Boa noite a quem me lê.
Um beijo, até…