Lembranças

Lembro de um filme imbecil que assisti ainda criança ou adolescente, algo assim.

Sobre bruxas e pedidos absurdos; e, claro, uma história de amor.

A bruxinha boa pediu um homem inexistente, que tivesse olhos um de cada cor e outras coisas pouco prováveis. O absurdo, o inimaginável, porque o mundo encontra-se só de concreto e pólvora, certeza e artimanhas.

Acho que o mundo anda tão condicionado e tenso que a pergunta do pequeno príncipe terá sempre como resposta: ” é um chapéu…”.

Até que o improvável aconteça e uma alma perceba em mim o avesso do mal, ou do perigo, por birra, escreverei chapéu em mim, mesmo sendo um elefante engolido por uma jibóia.

E não sei se rirei da tolice de todos, ou se chorarei minha infelicidade de nunca ser sabida como realmente sou.

Mas por birra, por protesto, pago o preço. Nem adiantaria gritar o contrário.

O mundo anda condicionado.

Eu digo flor, todos gritam bala.

Eu me calo.

Digam o que quiserem dizer.

Preparo para carnaval

Dia bonito é assim.
Volto a escrever depois do carnaval, mas deixo versos de Gullar.

“Acho que mais me imagino
do que sou
ou o que sou não cabe
no que consigo ser
e apenas arde
detrás desta máscara morena
que já foi rosto de menino

Conduzo
sob minha pele
uma fogueira de um metro e setenta de altura.
(…)

Você vai rir se lhe disser
que estou cheio de flor e passarinho
que nada
do que Amei na vida se acabou:
e mal consigo andar
tanto isso pesa.

Pode você calcular quantas toneladas de luz
comporta
um simples roçar de mãos?
ou o doce penetrar
na mulher amorosa?

Só disponho de meu corpo
para operar o milagre
esse milagre
que a vida traz e zás
dissipa às gargalhadas.”

quase totalidade do poema Detrás do Rosto, de meu mais recente amado poeta, Gullar.

Amanhecer

Já ia tropeçando em ideias de mim quando conheci almas grandes e me deparei com um espelho.
Sondei o reflexo, mulher rara, forte, doce, leal. Mulher. E busquei o que se via nos olhos. Poesia, amor, paixão para quem realmente merecer.
E eu antecipando rendições…
E eu desmerecendo meus brilhantes.
Ora.
E eu tola, deixando ditos sem respostas. Logo eu, que nutro cada palavra de mais mil. Assim, ficam mil palavras órfãs de depois.
E o reflexo era todo pensamento.
Tem horas nos falta só isso, admirar mais detidamente a si próprio.

Cantiga pra não morrer -

Ferreira Gullar.

Quando você se for embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

 

Guerra

Mando assentar palavras…
Madrugada que não durmo é precipício de mim.
Porquês sem por quês brotam.
Mando assentar palavras.
A ordem é sobreviver.

Abandono

Meu coração hoje é lamento.
Meu corpo é início de desejo que pra me por a salvo vou abafar.
A voz fere, o silêncio fere, até o beijo fere.
É doce pra negar promessas.
E a vida em anos corridos, estancados em mim.
Dia desses reaveJo meu sorriso, e não estranhem todos se deixar como eu apenas uma figura séria, segura, e toda razão.
Poesia hoje em dia é preciso esconder da brisa.
Até brisa é bicho feroz.
E eu sou mansa demais.
E já me cansei demais.
E eu desisti.

Vou-me embora. Vou-me embora.

Vou-me embora para Pasárgada – Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.”

Nem mesma, a água, nem mesmos, nós.

Atrás de uma linha imaginária, se esconde meu coração, enquanto lhe olha e faz cálculos numa conta inútil, pois sem número algum. Com você, minhas palavras estão como minhas pernas, confusas, como suas pernas, inquietas. E eu lembro Heráclito, e é… E na sua distração, meu maior perigo. Se é perigo…

Não sei até qual marco mudamos, ou o ponto intrincado em que nem cheguei a lhe conhecer. Eu sei que me agrada a contemplação de você. E é novo e lindo.

Eu trago meu peito seguro nos olhos, mas meus olhos voltam a buscar pelos seus. Conto descendo escadas. Por que então meus pés tocando a linha, medrosos? E pisando em freios, e controlando instintos, medindo, insistindo em contas que não existem?

Porque é Heráclito.

Só uma coisa se mantém, por alguma razão não há o desvio de você. Resta o ser? E assim, numa hora dessas, esquecer esse risco no chão, torre de segurança de uma cidade sem portas e janelas.

Abrir as asas que trago no peito, aí saio do chão, no céu, morada minha, não há linhas. Pouso ajuntada? E canto algo novo, do que parece não ser novo mas é.

 

 

Destino fatídico.

“Ela quer morrer. Desistiu da vida.”

Assim minha avó concluiu seu resumo diário da terça-feira última. Tinha visitado uma amiga, antes tida como a personificação da disposição e alegria. Mas a pobre entristeceu-se, perdeu a sobrinha que amava, julgou-se só, sem porquês, sem motivos; rendeu-se à cama, desistiu de viver.

A história triste ouvi lamentando conjuntamente.

Viver é bom, mesmo quando dói. E dói quase sempre. A gente anda em ais. E a solidão é esse capataz que persegue a boa sorte de alguns, e lhes rouba o ânimo, a esperança; resta só a prostração e a espera dos segundos indo. Uma hora, finalmente, se acabam assim.

É triste ver a rendição e o desejo do fim. Acho estranho, a cada lua linda que se posta no céu, a cada sim e não que escuto, a cada chance ou fé de felicidade, a cada promessa de amor cumprida ou não… A cada isso, que é tanto, tudo, me revira a ideia da abdicação. Abdicar da vida. Como é possível algo assim?

Então lembro dos meus dias tristes, e eles existiram, e foram tão tristes como são todos os dias tristes, sem nome, sem cara, sem diferenciação. Na síntese, cinzas e ásperos, porque arranham nossa paz, e nos dilaceram a alegria. Os dias tristes são feras nascidas da nossa própria dor.

Sim, eu conheci a tristeza, e justamente nessa hora, não me agradou sua face; foi quando preferi a felicidade, mesmo aquela vestida de alegria do instante efêmero.

O beijo que eu dei. O beijo que quis e me levou a sonhar, e não dei… ( acreditem, foram muitos). O abraço ousado, o abraço ganhado, a paz refeita, o perdão dado, a mão recebida. O toque, o cativar, o amor, o cuidado.

Esses prêmios, as conversas guardadas no ouvido da lembrança. A mão que antes pôs medo e depois foi só amor. A voz que ditou conselhos, depois pediu atenção. A vida, assim… Rica, linda. Como abrir mão?

A amiga de minha vó deitou-se e espera morrer. Está assim em um quarto escuro, e assim decidiu ficar. Pílula milagrosa nenhuma operou o tal milagre. E como diz Dona Osmarina: ” É mais nova que eu.” Não que sejam jovens as duas, não são. Mas a vida em si não tem idade…

Nisso tudo, além do compadecer, pensei e pensei em mim. Sofro de um subjetivismo crônico e irremediável.

Já dramatizei meus finais, cultivei lágrimas, depois as curti em frases intensas e pouco práticas. Hoje, as encaro com uma certa ironia, achando graça do meu escâncalo infantil. Descobri valores maiores. Como esse ( que não sei se absurdo ou não, se acaso legítima razão) impulsionador da entrega voluntária da amiga de minha avó de sua própria vida.

Ela perdeu quem amava, quem lhe dava carinho. Alguns chamam esse ser de mãe, marido, esposa, filho, filha, amigo; ou, no seu caso, sobrinha.

Aos trinta, minha maior lição foi amor. Eu já confundi amor com loucura, com devaneio, com prazer. Confundi amor até com capricho. Confundi, até me deparar com o medo de perder quem amava. Logo eu, que jurava desapego.

Hoje, amor é amor. E o que isso é, nem Platão, em seu banquete, conseguiu me dizer.

Peço o desvio do destino da amiga de minha avó. A renovação do viver, uma nova razão talvez…

Termino como realmente as coisas são, sem saber.

Quem diz que de saudade de amor não se morre, amor não conheceu.

Boa noite a quem me lê.

Um beijo, até…

Licença

O mundo gira apressado. Em que canto se esconde o amor?

Não, não peço licença, não peço favor, esqueça piedade. Tenho um coração solitário e a esperança nos olhos.

Quantas almas não são assim?

Mas já não tenho pressa e a loucura é uma palavra arriscada pra se pronunciar.

Tenho a paz do cansaço.

Tenho a paz da longa caminhada.

Não, não peço licença, passo. Porque é meu caminho seguir.

Espero a mão estendida pegando a minha, espero beijo manso ou não, antes de dormir.

Já não tenho pressa e a loucura se mostrou a mim bem como é, desagradável.

Licença, sem pedir.

Espero sem esperar.

Vem? Não sei.

Saberei?

Hoje não.

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